Durante nove anos, entre 1783 e 1792, o naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira percorreu a Amazónia, o Pantanal e o Cerrado numa das maiores expedições científicas do seu tempo. Recolheu plantas, animais, ilustrações e registos etnográficos que ficaram esquecidos durante mais de dois séculos. Agora, uma equipa de cientistas portugueses e brasileiros começa finalmente a revelar a verdadeira dimensão desta missão histórica.
Hoje viajamos no tempo para contar uma história fascinante da ciência e da biodiversidade, uma história que começa no século dezoito e que ainda hoje está a ser desvendada. E que Helena Geraldes, da Wilder, divulgou em Portugal.
Falamos hoje de Alexandre Rodrigues Ferreira, um naturalista luso-brasileiro que, entre 1783 e 1792, liderou uma das mais extraordinárias expedições científicas da sua época, conhecida como a Viagem Filosófica ao Brasil. Durante nove anos, percorreu territórios que hoje reconhecemos como verdadeiros hotspots, ou pontos-quentes, de biodiversidade, como a Amazónia, o Pantanal e o Cerrado, numa altura em que estes lugares eram praticamente desconhecidos para a ciência europeia. Acompanhado por ilustradores, recolheu plantas, animais, desenhou paisagens, registou povos indígenas e documentou um Brasil natural riquíssimo. O mais impressionante é que Alexandre Rodrigues Ferreira morreu em 1815 sem nunca ter publicado um único parágrafo sobre este trabalho monumental. Durante mais de dois séculos, grande parte do que recolheu ficou disperso, esquecido ou perdido em museus e arquivos. Agora, essa história começa finalmente a ganhar forma.
Uma equipa de cientistas portugueses e brasileiros, liderada pelo investigador Luís Ceríaco, do CIBIO da Universidade do Porto, em colaboração com investigadores portugueses e brasileiros, acaba de publicar os primeiros resultados científicos dedicados aos répteis e anfíbios recolhidos nessa expedição, num artigo publicado na revista científica South American Journal of Herpetology.
Recordemos que Luís Ciríaco fez a sua formação inicial em Biologia na Universidade de Évora, assim como outros dois autores do artigo: Mariana Marques e Diogo Parrinha.
Para fazer a investigação científica foi necessário um verdadeiro trabalho de detetive, reunindo informações a partir de manuscritos, ilustrações antigas e espécimes guardados em museus de Portugal, do Brasil e de França. Estima-se que a expedição tenha recolhido pelo menos mil seiscentos e sessenta e seis espécimes herpetológicos, incluindo tartarugas, cobras, lagartos, crocodilos e centenas de ovos. Muitos perderam-se ao longo do tempo, vítimas de incêndios, mudanças de instalações e até das invasões francesas, que levaram parte das coleções para Paris. Ainda assim, alguns sobreviveram e são hoje dos espécimes mais antigos da história natural portuguesa e brasileira, com destaque para os que estão no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e no Museu de História Natural de Paris.
Apesar de Alexandre Rodrigues Ferreira nunca ter publicado os seus resultados, o seu trabalho teve impacto. Outros naturalistas europeus usaram os seus espécimes e desenhos para descrever dezenas de espécies novas para a ciência, incluindo animais emblemáticos da América do Sul, como o boto-cor-de-rosa ou a tartaruga-da-Amazónia. Esta investigação lembra-nos algo fundamental. A ciência precisa de tempo, de memória e de coleções.
Luís Ceríaco alerta ainda que hoje estamos a recolher cada vez menos espécimes em todo o mundo, por falta de recursos humanos e porque muitos museus estão a ser afastados da sua missão central de estudar e catalogar a biodiversidade. Se no futuro quisermos compreender a biodiversidade do nosso tempo, precisamos de investir agora em ciência, em museus e em conhecimento de base. A história de Alexandre Rodrigues Ferreira mostra-nos que proteger a natureza também passa por a conhecer, documentar e valorizar, mesmo que os frutos desse trabalho só venham a ser plenamente reconhecidos séculos depois.
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