O comandante dos Bombeiros Voluntários de Ponte de Sor, Simão Velez, descreve a evolução profunda da atividade, marcada por maior exigência técnica, formação contínua, multiplicidade de respostas operacionais e incorporação de tecnologia avançada. “O cidadão quer é ser assistido com qualidade e tão rápido quanto possível, com competência técnica”, afirma.
A atividade de bombeiro mudou radicalmente nas últimas décadas. Da falta de meios e improviso dos primeiros anos à elevada especialização técnica atual, o comandante Simão Velez descreve um setor em permanente evolução, onde a formação contínua, a tecnologia e a capacidade de resposta multidisciplinar são hoje pilares essenciais. Nesta entrevista ao jornal aponte, o responsável pelos Bombeiros Voluntários de Ponte de Sor analisa os desafios atuais, a motivação das equipas, a adaptação aos riscos do concelho e o impacto da inovação no socorro.
O comandante Simão Velez recorda que o início da carreira, em Avis, foi marcado por uma realidade muito diferente da atual. “Havia muito poucos meios e poucos equipamentos”, afirma, lembrando que os bombeiros utilizavam capacetes de obra e improvisavam sempre que necessário. A disponibilidade e a vontade de servir eram os pilares essenciais de uma atividade que, na época, dependia quase exclusivamente do espírito voluntário.
Quatro décadas depois, o cenário mudou profundamente. “O cidadão não está preocupado em saber se o operacional é voluntário ou profissional; quer é ser assistido com competência.” A exigência técnica aumentou de forma significativa, acompanhando a evolução da sociedade e a complexidade das ocorrências. Hoje, cada bombeiro ativo deve cumprir 200 horas anuais de serviço, das quais 40 obrigatórias de formação, num contexto em que a multiplicidade de respostas emergência pré‑hospitalar, incêndios urbanos e florestais, desencarceramento, operações no aeródromo, mergulho exige atualização permanente.
“Um bombeiro tem de abranger o máximo de áreas possível”, sublinha o comandante, destacando que a formação é contínua e que os procedimentos evoluem diariamente. A participação em campeonatos nacionais e internacionais tornou‑se uma ferramenta de motivação e aprendizagem, envolvendo dezenas de operacionais ao longo do ano. “É um desafio permanente manter as equipas motivadas”, admite.
A preparação é moldada pelos riscos específicos do concelho: crescimento urbano, atividade aeronáutica, plano de água de Montargil, ferrovia, EN2 e forte presença industrial. “Temos de nos adaptar aos riscos”, afirma, sublinhando que a diversidade operacional exige treino constante e capacidade de resposta imediata.
A tecnologia tem desempenhado um papel determinante na modernização do socorro. Ferramentas de desencarceramento mais leves, compressores cardíacos automáticos, ambulâncias com pressão negativa e novos dispositivos de imobilização são exemplos de equipamentos que transformaram a eficácia das operações. A introdução de um veículo especializado no aeródromo reforça a preparação para cenários extremos.
Simão Velez destaca ainda o apoio contínuo da direção da Associação Humanitária. “Os gastos financeiros com formação são um investimento”, afirma, reconhecendo que a corporação tem beneficiado de estabilidade e visão estratégica. A participação em campeonatos internacionais, apesar dos custos elevados, tem retorno direto na qualificação das equipas.
A captação de jovens continua a ser um desafio, mas a tecnologia, a dinâmica operacional e a perceção pública da qualidade do socorro têm contribuído para atrair novos elementos. “Temos de ser uma equipa em muitos momentos”, afirma o comandante, sublinhando que salvar vidas ou melhorar a qualidade de vida das pessoas continua a ser a motivação maior.
Apesar da intensa atividade, o comandante reconhece que a corporação ainda não consegue mostrar tudo o que faz. “A população merecia”, afirma, valorizando o papel do jornal aponte na divulgação do trabalho dos bombeiros. A entrevista encerra com uma certeza: “A competência dos técnicos é completamente diferente do que era há dez anos.”