Num ano marcado pela subida generalizada dos custos de produção, Rui Varela analisa no terreno uma parcela de ervilha para fresco instalada em terras fortes da região de Avis, explicando a necessidade de rega contínua, o impacto dos fertilizantes e da energia, e a importância da palha para a alimentação animal.
A cultura da ervilha para fresco, instalada no final do inverno e conduzida com rega permanente, enfrenta este ano uma pressão acrescida devido ao aumento dos custos de produção. Rui Varela, presidente da ACORPSOR, explica no terreno os desafios e as decisões que marcam esta campanha agrícola.
No mais recente episódio do programa À Sombra da Agricultura, realizado em parceria entre o jornal aponte e a ACORPSOR, Rui Varela deslocou‑se a uma parcela semeada com ervilha para fresco, instalada no final do inverno e conduzida em regime de rega devido às características das terras fortes da zona de Avis. Trata‑se de uma cultura habitualmente associada ao Ribatejo, onde é semeada durante o inverno e exige pouca rega, mas que, neste contexto específico, entra pela primavera e obriga a acompanhamento hídrico constante. A explicação é simples: as condições do solo obrigam a uma instalação mais tardia, o que altera todo o ciclo produtivo.
Durante a análise no terreno, Rui Varela sublinhou que a decisão de avançar com a cultura resulta, em grande parte, da necessidade de manter a atividade agrícola em funcionamento. Os agricultores dispõem de sistemas de rega, maquinaria, infraestruturas e mão de obra que não podem permanecer parados, pelo que a produção se torna inevitável. No entanto, o presidente da ACORPSOR destacou que este ano tem sido marcado por uma subida contínua e descontrolada dos custos de produção, afetando todas as fases do processo. O gasóleo, a eletricidade e os fertilizantes registaram aumentos significativos, alterando previsões iniciais e obrigando a reajustes constantes ao longo da campanha.
Apesar de ser uma leguminosa com capacidade de fixação de azoto, Rui Varela recordou que a ervilha não fixa nutrientes antes da floração, exigindo adubações específicas para garantir o desenvolvimento adequado. A isto somam‑se os custos de bombagem da água, a mobilização do solo, os adubos de fundo, os tratamentos de pré‑emergência, os inseticidas e os fertilizantes de cobertura, num conjunto de operações que tornam a cultura particularmente exigente num ano de forte pressão financeira.
O responsável destacou ainda a importância da palha resultante da cultura, que pode ser enfardada e utilizada na alimentação de ruminantes. Num contexto de escassez de palhas, esta opção ganha relevância para explorações que integrem produção animal, uma vez que a palha de ervilha é muito apreciada por ovelhas, vacas e outros ruminantes. Embora não transforme a cultura num grande negócio à partida, representa um contributo adicional que pode equilibrar as contas no final da campanha.
Rui Varela lembrou também que esta cultura beneficia de apoios no âmbito das hortícolas industriais, o que contribui para mitigar parte dos riscos num ano particularmente complexo. Ainda assim, reforçou que o sucesso da campanha depende, em grande medida, das condições meteorológicas. As chuvas registadas nos últimos dias trouxeram algum alívio, mas a necessidade de uma primavera mais chuvosa mantém‑se como fator determinante para quem investiu na produção de ervilha para fresco. O mesmo se aplica às restantes culturas de primavera, como o milho, que enfrentam desafios semelhantes e dependem igualmente de condições climáticas favoráveis.
O episódio encerrou com uma mensagem de esperança, sublinhando que a agricultura continua a ser uma atividade marcada pela incerteza, pelo risco e pela necessidade de resiliência. Num ano de custos elevados e exigências acrescidas, a conjugação entre capacidade técnica, gestão rigorosa e condições meteorológicas será decisiva para o resultado final das explorações.