Os efeitos das alterações climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se tornarem um fator real na avaliação e valorização do património edificado. Em Portugal, fenómenos como incêndios florestais, inundações, erosão costeira e ondas de calor estão a influenciar o custo dos seguros, o acesso ao crédito e as decisões de investimento. A tendência, já visível em vários países europeus, aponta para uma integração crescente do risco climático na análise de ativos imobiliários, reforçando a necessidade de adaptação e de políticas públicas mais robustas.
Riscos climáticos começam a reconfigurar o mercado imobiliário em Portugal e na Europa
Os efeitos das alterações climáticas estão a deixar de ser um risco abstracto para passarem a ter impacto directo e mensurável no sector imobiliário. Em Portugal — e de forma crescente em toda a Europa — incêndios florestais, inundações, erosão costeira e ondas de calor estão a influenciar o valor dos imóveis, o custo dos seguros e as decisões de investimento de bancos, promotores e proprietários.
De acordo com projecções do IPCC (que significa Intergovernmental Panel on Climate Change em português Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), a intensificação de fenómenos extremos é uma tendência irreversível nas próximas décadas, o que coloca o património edificado no centro do debate sobre adaptação climática e estabilidade financeira.
Portugal: incêndios, costa vulnerável e calor extremo
Em Portugal, o risco climático assume contornos particularmente relevantes. O país é um dos mais expostos da Europa a incêndios florestais, sobretudo em zonas rurais e periurbanas. Todos os anos, milhares de hectares ardem, colocando em risco habitações, infraestruturas e pequenas localidades. Para os proprietários, os prejuízos nem sempre são totalmente cobertos por seguros, o que transfere grande parte do risco financeiro para as famílias e para o Estado.
A isto soma-se a vulnerabilidade da extensa linha costeira portuguesa. A subida do nível médio do mar, associada a tempestades mais intensas, tem agravado fenómenos de erosão e inundação costeira, afectando zonas residenciais, empreendimentos turísticos e infraestruturas críticas, em particular no Algarve, na costa centro e nos estuários do Tejo e do Douro.
Nas áreas urbanas, o aumento da frequência de episódios de chuva intensa tem provocado cheias rápidas, com danos recorrentes em caves, garagens e redes de transporte. Paralelamente, as ondas de calor — cada vez mais frequentes e prolongadas — afectam a habitabilidade dos edifícios, aumentam os custos energéticos e penalizam imóveis sem soluções adequadas de isolamento e ventilação.
Impacto económico: seguros, crédito e valor dos ativos
Os riscos físicos associados ao clima estão a transformar-se em riscos económicos. Seguradoras começam a rever prémios, exclusões e limites de cobertura em zonas de maior exposição, tornando alguns imóveis mais caros de segurar — ou, em casos extremos, praticamente não seguráveis.
Este fenómeno tem reflexos directos no financiamento bancário. Instituições financeiras europeias estão a ser pressionadas a incorporar o risco climático na avaliação de crédito imobiliário. O Banco Central Europeu e a Autoridade Bancária Europeia já exigem que os bancos identifiquem a exposição das suas carteiras a eventos climáticos extremos, o que pode traduzir-se em critérios de concessão mais restritivos ou em custos de financiamento mais elevados para imóveis localizados em áreas vulneráveis.
No mercado, começa também a emergir um processo de reavaliação de activos. Imóveis situados em zonas de risco elevado podem sofrer desvalorizações progressivas, à medida que investidores e compradores passam a internalizar custos futuros de adaptação, seguros mais caros ou potenciais perdas físicas.
Uma realidade europeia com diferenças regionais
Embora Portugal apresente riscos muito específicos, o fenómeno é europeu. No norte e centro da Europa, as principais ameaças são as inundações fluviais e urbanas, como demonstraram eventos recentes em países atravessados por grandes rios. Em zonas mediterrânicas, o padrão aproxima-se mais do português: incêndios, escassez hídrica e calor extremo.
A diferença reside, muitas vezes, na capacidade de resposta. Alguns países dispõem de sistemas de seguro mais robustos, planeamento urbano mais restritivo e investimentos significativos em infraestruturas de protecção. Ainda assim, mesmo nesses contextos, os custos associados à adaptação climática do edificado estão a crescer rapidamente.
Adaptação deixa de ser opcional
Especialistas alertam que ignorar o risco climático no imobiliário já não é uma opção viável. A tendência aponta para uma integração crescente de critérios climáticos na avaliação de imóveis, tanto por investidores privados como por entidades financeiras.
Medidas como melhoria da drenagem urbana, elevação de pisos em zonas inundáveis, utilização de materiais resistentes ao fogo, criação de faixas de protecção contra incêndios e reforço do desempenho térmico dos edifícios começam a ser vistas não apenas como boas práticas ambientais, mas como factores determinantes de preservação de valor.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão sobre autoridades públicas para reforçar o ordenamento do território, limitar novas construções em zonas de risco elevado e investir em soluções de adaptação baseadas na natureza, como a recuperação de dunas, zonas húmidas e espaços verdes urbanos.
Um novo paradigma para o setor imobiliário
O sector imobiliário europeu entra, assim, num novo paradigma: o valor de um imóvel deixa de depender apenas da localização, tipologia ou estado de conservação, passando a incorporar a sua resiliência climática.
Em Portugal, onde o peso do imobiliário é significativo na economia e na poupança das famílias, esta mudança poderá ter impactos profundos. Para proprietários, investidores e decisores públicos, a questão já não é se os riscos climáticos vão afectar o mercado, mas quando — e quem estará preparado para lidar com eles.
Ficamos por aqui. O Você Sabia regressa para a semana. Até lá fique bem .