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João Nivea: do Eléctrico à afirmação nacional num percurso de resiliência e ambição

Numa entrevista extensa ao jornal aponte, João Nivea revisita o início precoce no Eléctrico, as viagens de automotora aos 9 anos, o gosto pela gestão desportiva, os projetos difíceis que marcaram a carreira e a forma como a interioridade moldou o seu caminho. Entre futebol, futsal e desafios nacionais, o treinador reflete sobre maturação, liderança e ambição.

João Nivea, conhecido no meio desportivo pelo percurso construído a partir do Eléctrico Futebol Clube, regressa ao diálogo com a comunicação social local após uma década de ausência. Nesta entrevista ao jornal aponte, revisita o início precoce no clube da terra, a resiliência moldada por viagens solitárias de automotora aos 9 anos e a construção de uma carreira feita de projetos exigentes, interioridade e ambição. Entre futebol, futsal e desafios nacionais, descreve um caminho que nunca foi linear, mas sempre determinado.

João Nivea recorda que tudo começou cedo. Aos 16 anos, ainda juvenil, já conciliava o papel de jogador com as primeiras experiências como treinador no Eléctrico. O gosto pelo futebol sempre existiu, mas o que verdadeiramente o movia era a gestão desportiva. “Nunca joguei FIFA nem Pro Evolution; os meus pés jogavam era o Football Manager”, afirma, revelando uma inclinação natural para a liderança. Natural de Cascais, nascido em 1991, encontrou em Ponte de Sor o ambiente que moldou a sua identidade competitiva e que viria a marcar toda a sua trajetória. O percurso académico decorreu em paralelo, numa tentativa de garantir preparação caso a carreira desportiva não evoluísse como desejado, mas o foco manteve-se sempre no futebol.

Um dos momentos mais marcantes da entrevista surge quando recorda as viagens de automotora aos 9 anos, entre Torre das Vargens e Ponte de Sor, para poder jogar. O avô dava-lhe 100 escudos para o bilhete, e o resto fazia-se a pé. Era recebido por funcionários que marcavam o campo e, mais tarde, por diretores que o acolhiam para evitar que continuasse sozinho. Essas experiências aceleraram a maturação desportiva e pessoal. “Fui sempre um jogador muito bom e isso fez com que eu crescesse mais rápido na maturação desportiva.” A resiliência que hoje o caracteriza nasce precisamente desse contexto, marcado por esforço, autonomia e uma ligação profunda ao clube e à cidade.

Apesar de o futebol ter sido sempre o objetivo principal, o futsal marcou parte do seu percurso. Jogou por amizade e por influência de treinadores e colegas. Mais tarde, no Sertanense, coordenou a secção de futsal e assumiu funções de treinador-jogador, embora mantendo o foco principal no futebol sénior. Reconhece que o futsal é hoje uma modalidade em ascensão, mas reafirma: “O meu foco é claramente o futebol.” Com anos dedicados à formação no Eléctrico, Nivea reflete sobre a evolução dos jovens atletas. Considera que o contexto social mudou e que a maturidade competitiva é hoje diferente. Ainda assim, acredita que o foco e a capacidade de ultrapassar dificuldades continuam a ser determinantes, como exemplifica com o caso de Diogo Basílio, dispensado no futebol e hoje internacional de futsal.

Sem nome feito, sem herança desportiva e sem ligações empresariais, descreve o seu percurso como “o trajeto do Zé Povinho”. Começou por baixo, aceitou projetos difíceis e foi construindo credibilidade através do mérito. A sua carreira sénior reflete precisamente essa progressão sustentada. Depois de experiências iniciais no Sertanense, integrou equipas técnicas em contextos competitivos como o Vilafranquense e o Benfica de Castelo Branco, antes de assumir funções principais em clubes como Juventude de Évora, Lusitano GC, Camacha, Moncarapachense e S. João Ver. Em vários destes projetos, alcançou classificações acima das expectativas e conquistou títulos regionais, reforçando a reputação de treinador capaz de fazer muito com poucos recursos. No Juventude de Évora, chegou com um contrato simbólico, mas conquistou a manutenção e quase atingiu a Liga 3. Esse trabalho abriu portas ao Benfica de Castelo Branco. Mais tarde, no Lusitano, com um orçamento reduzido, alcançou classificações de destaque. O zerozero.pt regista cinco títulos regionais no seu percurso, reflexo da consistência competitiva que foi construindo ao longo dos anos.

Para o treinador, o interior não pode viver da “cantiga do coitadinho”. Nivea aponta que a diferença entre clubes não está apenas no talento, mas na capacidade financeira que permite aceder a jogadores mais preparados, estruturas mais completas e ferramentas de trabalho mais avançadas. Ainda assim, sublinha que o conhecimento, o networking e a capacidade de liderança continuam a ser determinantes. Ao longo da carreira, trabalhou com jogadores que mais tarde se afirmaram em patamares superiores, como Hugo Firmino, Marcelo Valverde, André Caio ou Miguel Assunção — exemplos que reforçam a capacidade de potenciar talento em contextos competitivos exigentes.

Para além do trabalho de campo, investiu na formação como diretor desportivo, reforçando a compreensão das estruturas que rodeiam uma equipa sénior. Considera que, no Campeonato de Portugal, os treinadores têm de assumir múltiplos papéis, desde a gestão do plantel à organização logística. Apesar do percurso nacional, mantém disponibilidade para ajudar o Eléctrico em qualquer modalidade, reconhecendo que muito do que é hoje se deve ao clube e às pessoas que o acompanharam. A ligação emocional permanece intacta, mesmo depois de uma carreira construída em vários pontos do país.

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