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Mário Neves: como prolongar uma carreira no basquetebol até ao limite

Mário Neves começou “no desporto escolar, por brincadeira”, numa altura em que o basquetebol tinha pouca expressão e se jogava na rua, em tabelas improvisadas. Aos 17 anos já treinava com a equipa sénior e, desde então, aprendeu a gerir contratos curtos, a adaptar‑se a várias gerações e a manter disciplina para competir ao mais alto nível. Nesta entrevista ao jornal aponte, revisita um percurso marcado por sacrifício, responsabilidade e paixão pelo jogo.

A carreira de Mário Neves é um exemplo de resiliência num contexto competitivo exigente. Começou no desporto escolar, sem qualquer projeção de futuro, e foi construindo o seu caminho com disciplina, sacrifício e capacidade de adaptação. Nesta entrevista ao jornal aponte, fala sobre o início, a gestão da carreira, a convivência com várias gerações e a forma como continua a competir aos 48 anos.



Mário Neves recorda que começou a jogar basquetebol no desporto escolar, por brincadeira, numa altura em que a modalidade tinha pouca expressão e em que a maior parte do tempo se jogava na rua, em tabelas improvisadas, sempre que o espaço não estivesse ocupado pelo futebol. O gosto pelo jogo foi surgindo de forma natural, sem qualquer projeção de futuro, até ao momento em que recebeu o convite para integrar uma equipa federada. A partir daí, o percurso ganhou outra dimensão. Aos 17 anos já treinava com a equipa sénior, conciliando os estudos com os treinos da tarde, e foi nesse período que percebeu que podia fazer parte de um plantel e construir uma carreira, ainda que num contexto em que os valores eram diferentes e em que a prioridade passava por manter os pés bem assentes na terra, com a consciência de que seria sempre necessário ter um plano alternativo.

Ao longo da carreira, Mário Neves viveu com contratos curtos, maioritariamente de dez meses, o que exigia uma gestão rigorosa da vida pessoal. Fala de valores modestos e da necessidade de esticar o rendimento ao longo do ano, lembrando que as despesas não se ajustam ao calendário competitivo. A realidade financeira do basquetebol obrigou‑o a planear cada época com prudência, mantendo sempre presente a possibilidade de ter de trabalhar fora do desporto caso a carreira deixasse de ser viável. Essa consciência acompanhou‑o desde cedo e moldou a forma como encarou cada etapa.

A longevidade que hoje apresenta resulta de uma combinação entre genética, disciplina e consistência. Nunca teve lesões graves que o afastassem por longos períodos, mas complementou sempre os treinos da equipa com trabalho próprio, procurando manter o corpo preparado para responder às exigências do jogo. Assume que gosta de convívio e de momentos sociais, mas procurou sempre equilibrar esses hábitos com responsabilidade, consciente de que a recuperação e a preparação física são determinantes para continuar a competir. A disciplina tornou‑se um elemento central da sua rotina, permitindo‑lhe acompanhar colegas muito mais jovens e manter rendimento ao longo dos anos.

Enquanto capitão, Mário Neves partilhou balneário com várias gerações de jogadores. Alguns começaram com ele e saíram, outros chegaram quando já estava a meio da carreira, e hoje joga com atletas que têm idade para serem seus filhos. Reconhece que não pode comunicar com um jovem de 15 anos da mesma forma que comunicava com colegas de há 15 anos, porque cada geração interpreta as mensagens de forma diferente e exige abordagens distintas. Gerir egos faz parte do trabalho, sobretudo num contexto em que todos querem ser protagonistas e olhar para as estatísticas. Ainda assim, sublinha que há muito que não aparece na folha de jogo e que é decisivo para a equipa, reforçando que nunca pede a quem está ao seu lado para fazer aquilo que ele próprio não faz.

A comparação entre gerações surge de forma natural ao longo da conversa. Mário Neves recorda que, depois de um jogo de manhã, passava a tarde na rua ou a andar de bicicleta, enquanto hoje muitos jovens regressam a casa e ficam no quarto, com consolas e dispositivos. Considera que existe mais oferta, mais consumismo e mais distrações, o que retira espaço ao desporto. Ainda assim, reconhece que as condições de treino evoluíram significativamente e que muitos jovens não valorizam o acesso a pavilhões modernos e bem equipados, algo que, no seu tempo, era visto como uma conquista.

A evolução do jogo também marcou o seu percurso. Formado como poste, cresceu num modelo em que as posições estavam bem definidas, com bases, extremos e postes a desempenharem funções específicas. Com o tempo, o basquetebol tornou‑se mais rápido, mais físico e mais versátil, com jogadores altos a lançar de fora e equipas a alternarem entre estruturas mais interiores ou mais móveis, consoante a estratégia. Para acompanhar essa transformação, Mário Neves adaptou o seu estilo, reforçando a defesa, o ressalto e as pequenas ações que ajudam a equipa, assumindo que, hoje, faz “um pouco de tudo” para contribuir.

Apesar da idade, continua a sentir “borboletas antes do jogo”, uma sensação que interpreta como sinal de responsabilidade e motivação. Afirma que é competitivo em tudo, desde os treinos aos concursos de lançamentos, e que, enquanto essa vontade existir, continuará a competir. A ligação ao clube é evidente e manifesta‑se na forma como fala do balneário, da equipa e da exigência que coloca em si próprio.

A entrevista revela também momentos de maior exigência pessoal, nomeadamente quando esteve longe de casa, como no período em que jogou na Madeira. Estar afastado da família foi o mais difícil, sobretudo quando as coisas não corriam bem. Ainda assim, a forma de reagir manteve‑se sempre a mesma: trabalhar, manter a rotina e seguir em frente, com a consciência de que “amanhã é outro dia” e de que o treino é o espaço onde se reencontra equilíbrio.

O percurso de Mário Neves é marcado por disciplina, sacrifício e capacidade de adaptação. A forma como descreve cada etapa demonstra uma compreensão profunda do que significa construir e manter uma carreira no basquetebol português, num contexto exigente e pouco protegido. A entrevista deixa claro que a longevidade não é fruto do acaso, mas de uma combinação entre responsabilidade, resiliência e paixão pelo jogo, elementos que continuam a guiá‑lo dentro e fora do campo.

A equipa do jornal aponte agradece ao Mário Neves a disponibilidade demonstrada para a realização desta entrevista. Fez várias centenas de quilómetros para se deslocar até Ponte de Sor exclusivamente para esta gravação, num gesto que revela profissionalismo, respeito e sentido de compromisso. A sua presença permitiu registar um testemunho valioso para a comunidade desportiva e para todos os seguidores do jornal aponte.

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