
O Encontro Nacional da Imprensa Regional, promovido pela ANIR em Pombal, voltou a evidenciar a dimensão do deserto de notícias que se instala em metade dos concelhos do país. A par da perda de órgãos de comunicação social, cresce a influência dos gabinetes de comunicação das autarquias e persistem falhas no modelo de incentivos, num cenário que ameaça a democracia local e o direito dos cidadãos a uma informação verdadeiramente independente.
O Encontro Nacional da Imprensa Regional, organizado pela ANIR – Associação Nacional de Imprensa Regional, reuniu em Pombal, nos dias 28 e 29 de novembro, dezenas de profissionais e representantes de órgãos de comunicação social de proximidade. O encontro voltou a colocar no centro do debate três questões que hoje moldam, de forma decisiva, o futuro da informação local em Portugal: o avanço do deserto de notícias, a atuação dos gabinetes de comunicação das autarquias e a revisão dos incentivos à imprensa regional.
No painel dedicado ao deserto de notícias, foi apresentada uma realidade que já não pode ser ignorada: metade dos concelhos portugueses não dispõe de qualquer órgão de comunicação social com produção regular. Esta ausência de informação independente deixa territórios inteiros sem escrutínio, sem debate público e sem igualdade de acesso à informação. Os intervenientes foram unânimes ao afirmar que “sem imprensa local não há democracia local”, sublinhando que o desaparecimento de jornais e rádios enfraquece a vida cívica e aprofunda desigualdades que se refletem no desenvolvimento do país.
Outro dos temas que marcou o encontro foi a crescente influência dos gabinetes de comunicação das autarquias. Os participantes alertaram para práticas que ultrapassam a comunicação institucional e que, em muitos casos, se aproximam da produção jornalística, recorrendo a meios humanos e financeiros incomparavelmente superiores aos das redações locais. Esta realidade, afirmaram, cria concorrência desleal, confunde os cidadãos e abre espaço a fenómenos de “captura política da imprensa local”, num contexto em que o contraditório e a independência editorial ficam comprometidos.
O debate sobre os incentivos à comunicação social de proximidade, em vigor desde 2025, trouxe igualmente preocupações. O deputado Paulo Cavaleiro, presidente da Comissão Parlamentar da Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, reconheceu que cada concelho que perde o seu jornal “fica mais pobre e fragiliza a democracia”. Representantes das CCDR do Centro e de Lisboa e Vale do Tejo explicaram os processos de avaliação das candidaturas e admitiram que os prazos de aprovação e pagamento continuam a prejudicar projetos já aprovados, colocando em risco a sustentabilidade de muitos órgãos de comunicação social.
Neste contexto, foi também sublinhado que a sobrevivência dos jornais regionais depende, cada vez mais, de modelos de financiamento equilibrados e transparentes. No caso do jornal aponte, como sucede com muitos projetos sediados no interior do país, o tecido empresarial local é limitado, o que reduz significativamente a capacidade de gerar receita publicitária dentro da própria região. Esta realidade obriga a procurar parceiros comerciais fora do território, complementando a sustentabilidade com publicidade privada e divulgação institucional, sempre com total independência editorial. Esta dependência estrutural, comum a muitos órgãos de proximidade, reforça a importância de políticas públicas eficazes e de um ecossistema que não penalize quem trabalha em territórios de baixa densidade.
As CCDR informaram ainda que enviaram ao Portugal MediaLab um conjunto de recomendações destinadas a melhorar os procedimentos e a mitigar os constrangimentos identificados. A ANIR defendeu que a revisão do modelo de apoio deve garantir maior previsibilidade, equidade e eficácia, assegurando condições mínimas para que a imprensa regional possa continuar a cumprir o seu papel junto das populações.
O encontro terminou com uma mensagem clara: a informação de proximidade é essencial para o funcionamento do Portugal democrático. A sua fragilização representa um risco real para a coesão territorial e para o acesso equitativo dos cidadãos a uma informação independente, num momento em que muitos territórios já vivem em silêncio informativo.

