O presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponte de Sor afirma que “70 a 80% das associações pagam para socorrer populações” e revela que o défice anual local ronda os 180 mil euros. A falta de recursos humanos, a saída do Comandante Simão Velez, o impasse com o INEM e a necessidade de reforçar equipas marcam um momento decisivo para o futuro do socorro no concelho.
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponte de Sor enfrenta um conjunto de desafios estruturais que atravessam finanças, recursos humanos, operação diária e futuro organizacional. Em entrevista ao jornal aponte, Manuel Lopes apresenta uma visão direta e prática sobre um setor que continua a responder à população, mas que opera sob forte pressão.
Manuel Lopes recorda que a organização dos bombeiros portugueses tem mais de um século. Apesar da evolução, muitos problemas mantêm-se. Segundo o presidente, “70 a 80% das associações humanitárias pagam para socorrer populações”, uma realidade que considera insustentável.
A atividade de emergência pré-hospitalar continua a ser deficitária. “Diria que teremos perto de 100 mil euros de défice. No nosso caso, andamos à volta dos 180 mil euros”, afirma.
A associação funciona sem protocolo com o INEM desde 2022. “Até aos dias de hoje, o INEM não nos pagou nada além do que faturamos em excesso”, sublinha.
O processo judicial arrasta-se e poderá demorar anos. Ainda assim, o Ministro da Administração Interna assumiu que o problema será tratado ao mais alto nível.
A associação tem 56 a 57 profissionais, mas enfrenta dificuldades em recrutar e reter. “Pagamos horrivelmente mal”, admite Manuel Lopes.
O voluntariado também está em queda, reflexo de uma sociedade com mais alternativas de ocupação e menos disponibilidade. A necessidade de reforçar equipas é real, incluindo a possibilidade de uma terceira Equipa de Intervenção Permanente.
As brigadas do aeródromo poderão ter de passar de três para cinco elementos devido à tipologia de aeronaves que operam no local. “Vamos ter problemas de recursos humanos se tudo isto avançar em simultâneo”, alerta.
A associação tem um projeto de melhoria energética que inclui fachada, painéis fotovoltaicos, solares térmicos e novas caldeiras. A ampliação das garagens mantém-se prevista, mas não será imediata devido a constrangimentos de mercado.
O Comandante Simão Velez sai no início de maio para novos desafios. A sucessão externa não foi possível e a solução será interna durante seis a sete meses, até à definição do novo quadro de comando.
A saída do Comandante Miguel Carvalho, que assumiu outro corpo de bombeiros no distrito, reforça a necessidade de reorganização.
A resposta no concelho está garantida. No entanto, este ano a associação não terá capacidade para mobilizar quadros para teatros de operações fora do território.
A associação mantém quatro veículos de combate a incêndios florestais e várias viaturas ligeiras. Um veículo pesado não foi reposto após transferência para o nível nacional, obrigando à aquisição de um veículo em segunda mão.
2026 será um ano de alterações. A direção está no último ano de mandato e prepara uma revisão estatutária para evitar vazio diretivo caso não surjam listas alternativas.
A entrevista revela uma associação que continua a responder com profissionalismo, mas que enfrenta desafios profundos. Entre défices, falta de recursos humanos, incertezas com o INEM e mudanças no comando, o futuro do socorro em Ponte de Sor dependerá de decisões estruturais nos próximos meses.